
Realidades diferentes
problemas comuns
Foto:
René Cabrales / “EcoUrb”, parte
da Exposição A cidade,
a natureza, o cidadão:
um olhar sustentável - Santander Cultural |
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A apenas um mês do primeiro turno das eleições
municipais e com o recente início da propaganda
eleitoral gratuita no rádio e na televisão, os candidatos
a prefeito e vereador desdobram-se em
propostas inovadoras e promessas de solução de problemas.
Não raro, os projetos não levam em
conta a realidade das cidades. Por isso, o Extra Classe buscou
mostrar o que os novos prefeitos dos
dez principais colégios eleitorais do estado vão
encontrar quando assumirem seus postos. Juntas,
as dez cidades representam quase 35% do total do eleitorado e sua
realidade concentra o que
ocorre no entorno, em municípios quase sempre a elas vinculados.
Por Flavia Bemfica
orto
Alegre, Caxias do Sul, Pelotas,
Canoas, Santa Maria, Novo Hamburgo,
Viamão, São Leopoldo, Rio Grande
e Alvorada, nesta ordem, constituem os
maiores colégios eleitorais gaúchos. Por coincidência,
também são as únicas dez cidades,
entre as 496 do estado, com número de
eleitores superior a 100 mil. As dez – sete
delas pólos regionais – respondem por parte
significativa do PIB do Rio Grande do Sul,
concentram investimentos em tecnologia ou
população atraída por maiores chances de
emprego, ou ambos, quase sempre têm instituições
de saúde que são referência em suas
regiões e abrigam individualmente uma ou
mais instituições de Ensino Superior.
São municípios que alavancam desenvolvimento
econômico e investimentos, mas
também concentram problemas comuns, quase
sempre de infra-estrutura. Seu crescimento
atraiu uma população que acabou por
superpovoar as periferias e aumentar as áreas
de ocupação irregular. Outros traços comuns
são sistemas de transporte que não conseguem
atender de forma adequada às necessidades
da população e números muito pobres
com relação ao saneamento básico.
Na saúde, atraem demandas do entorno.
O resultado são sistemas sobrecarregados,
nos quais sucessivos diagnósticos do setor
público apontam para a dificuldade de acesso.
Na Educação, nenhuma das dez está entre
as que apresentam os melhores resultados quando analisado o bloco
Educação
do Índice de Desenvolvimento
Socioeconômico (Idese), formulado para os
municípios gaúchos pela Fundação de
Economia e Estatística (FEE).
Quando tomado como referência o Índice
de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb), medido pelo Ministério da
Educação (MEC), entre as dez apenas
Caxias do Sul apresentou média superior a
5,0 (de 5,1) para os anos iniciais do Ensino
Fundamental em 2007, o que não se repetiu
para os anos finais e, ainda assim, longe
da meta do país, que é chegar aos 6,0. “Estas
dez cidades possuem características
diferentes, mas no que se refere à infraestrutura,
apresentam problemas bem semelhantes,
até porque as deficiências ocorrem
de forma generalizada nos municípios”,
resume o chefe do Setor de Informações
do IBGE no RS, Ademir Koucher.
ALVORADA
Aumentar os indicadores relativos à
renda, combater as conseqüências
da pobreza, como a violência
urbana, a falta de saneamento básico,
o excesso de moradias irregulares,
e as deficiências do transporte
público são desafios de Alvorada.
Também há o histórico
funcionamento como cidade-dormitório,
o que faz com que a população –
que em geral já tem baixo
poder aquisitivo – gere renda fora
dos limites da cidade.
No saneamento, índices da
Corsan indicam que só 14,91% das
residências possuem rede coletora
de esgotos. Conforme dados da Secretaria
Estadual da Saúde, Alvorada
tem os mais altos índices de
mortalidade infantil da Região
Metropolitana. A taxa de analfabetismo é
de quase 6%. “Alvorada
ainda é muito pobre, apesar de possuir
uma localização estratégica na
Região Metropolitana. Pelo menos
30% da população trabalha em outras
cidades”, destaca Koucher.
CANOAS
Com economia calcada no setor
industrial (68,4% do PIB), Canoas
tem os problemas da saúde, segurança
e desenvolvimento urbano como prioridade na agenda dos
candidatos. Mas meio ambiente,
transporte e habitação também
apresentam deficiências. Detentora
do segundo maior PIB do estado
(atrás apenas da capital), concentra
indústrias de grande porte, como
a Refinaria Alberto Pasqualini
(Refap) ou a Springer Carrier, que
geram um fluxo constante de trabalhadores
e cargas.
À
concentração industrial, aliase
o fato de Canoas ser cortada pela
BR-116 e pela linha do Trensurb. Os
traçados de ambos, em vez de
margearem a área urbana, a atravessam,
dividindo a cidade em três. Os
problemas no trecho da BR-116, onde
conforme os dados do Departamento
Nacional de Infra-Estrutura Terrestre
(Dnit), passam 130 mil veículos
por dia, acabam com reflexos severos
na economia e no meio ambiente.
Uma empresa detém o monopólio do
transporte coletivo urbano dentro do
município. O serviço é deficiente,
com grandes intervalos de horários e
superlotação. Nos horários de pico, a
lotação nos trens da Trensurb, alternativa
de deslocamento para fora da
cidade, é um pesadelo. “Apesar das
dificuldades enfrentadas em transporte
e saneamento, segurança e saúde
ainda são os problemas maiores”, ressalva
o professor do curso de Ciência
Política da Ulbra e do Mestrado em
Inclusão Social da Feevale,
Everton Santos. Segundo
ele, o desafio de Canoas é
o mesmo
dos grandes
centros: ativar a participação social.
CAXIAS DO SUL
Algumas características diferenciam
Caxias do Sul dos outros
grandes colégios eleitorais. O tradicional
pólo metal-mecânico gaúcho
tem a melhor qualidade de
vida, quando considerados os dados
globais do Idese. Na avaliação
dos especialistas, desfruta da confortável
situação das cidades de porte
médio: acesso a serviços disponíveis
em metrópoles e, ao mesmo tempo,
manutenção de características de
pequenos municípios. A isso se juntam
iniciativas diferenciadas em
infra-estrutura, como a coleta seletiva
do lixo (referência no país) e,
no transporte coletivo, o uso de lotações.
Na composição do PIB, apesar
do destaque da indústria, há equilíbrio
entre os três tradicionais setores
da economia.
Os bons números acabaram por
atrair muita gente em busca de
emprego e vida melhor. Entre 1991
e 2000, conforme dados do IBGE,
enquanto o RS teve taxa de crescimento
demográfico de 1,3% ao
ano, em Caxias o índice foi de 2,5%
ao ano. O inchaço das periferias é apenas
um dos desafios. Os bons
indicadores de saneamento são garantidos
pela coleta de lixo, uma
vez que, conforme dados do Serviço
Autônomo Municipal de Água
e Esgoto (Samae), embora a rede
para esgoto sanitário cubra 85% da
cidade, só 12% dos dejetos são tratados.
O item mobilidade urbana é
outro problema.
Além dos engarrafamentos,
há várias
deficiências no sistema
de ônibus urbanos,
a cargo de uma única
empresa. Na segurança,
os índices de violência assustam: é
a terceira cidade em número de
homicídios no RS.
NOVO HAMBURGO
Saneamento e preservação do
meio ambiente, além de geração
de emprego e renda, dominam os
debates em Novo Hamburgo. A
questão ambiental e do saneamento
está relacionada à poluição
do Rio dos Sinos, cenário de
desastres ambientais. Na economia,
a estabilidade do dólar reduziu
as exportações de calçados,
o que aumentou as demissões e o
fechamento de indústrias do setor
calçadista. “A cidade se aproxima
de Caxias em termos de desenvolvimento
econômico, mas
está em reversão. Vai precisar de
eficiência e tecnologia de ponta”,
defende o professor Luis Roque
Klering, do Núcleo de Estudos e
Tecnologias em Gestão Pública da
Escola de Administração da Ufrgs. “Novo
Hamburgo não tem só calçados
e segue centralizando poder
decisório e capital. Se a Região
Metropolitana fosse separada
em duas partes, elas seriam
Porto Alegre e Novo Hamburgo”,
acrescenta Ademir Koucher, do
IBGE.
PELOTAS
Educação, infra-estrutura, saneamento,
emprego e desenvolvimento
concentram os debates em
Pelotas. Referência do patrimônio
histórico e cultural na Metade Sul,
o município já ocupou lugar de
mais destaque na economia gaúcha
e necessita, há décadas, de
alternativas para o desenvolvimento.
Pelotas possui uma economia
voltada para o setor de serviços,
mas apresenta alguns indicadores
problemáticos. Apesar do contingente
populacional equivalente ao
de Caxias do Sul, tem um PIB quatro
vezes menor. Na Educação, teve
a pior avaliação do Ideb para os
anos iniciais do Ensino Fundamental
em 2007 entre os dez maiores
colégios eleitorais: 3,6. Nos anos finais,
a média ficou em 2,9. “Pelotas
precisa investir em desenvolvimento
e modernização, como toda a
Metade Sul”, alerta o professor do
curso de pós-graduação em Ciência
Política da Ufrgs, Benedito Tadeu
César.
PORTO ALEGRE
Saúde, segurança, mobilidade
urbana e emprego dominam os planos
dos oito candidatos à prefeitura
da maior e economicamente
mais importante cidade gaúcha, a
capital. A prioridade às áreas não
ocorre por acaso. Os candidatos
pesquisaram o que os moradores de
Porto Alegre desejam e o que julgam
que está mal. Ficaram tranqüilos
com a questão do saneamento,
porque a cidade tem em andamento
o Programa Integrado
Socioambiental (Pisa), que deverá elevar o
percentual de esgoto tratado para 77% até 2012. Hoje,
a rede de esgoto cloacal cobre 85%
dos domicílios, mas só 27% do esgoto é
tratado. No que se refere à ocupação
da mão-de-obra, Porto
Alegre, além de ser pólo industrial
e (cada vez mais) de serviços,
pleiteia ser referência na América
Latina em tecnologia da informação –
com a conclusão do Centro
de Excelência em Tecnologia Eletrônica
Avançada (Ceitec), que
fabricará chips, na Lomba do Pinheiro. “Mas
a cidade precisa procurar melhor sua vocação. Há uma
tendência
clara no sentido dos serviços e da tecnologia, mas
ainda falta infra-estrutura que
garanta o desenvolvimento de diversos
setores”, avalia o professor
Luis Roque Klering, do Núcleo
de Estudos e Tecnologias em
Gestão Pública (Nutep) da Escola
de Administração da Ufrgs.
A mobilidade urbana tornouse
outro grande ‘calcanhar-deaquiles’ da capital. Uma série
de fatores, entre os quais o aumento
da frota de veículos e a falta
de meios alternativos de transporte
público, transformaram os
grandes congestionamentos em
um problema diário. A saúde e a
segurança não ficam atrás. Para
reverter os indicadores negativos
na área de segurança pública,
quase todos os candidatos prometem
a qualificação da guarda
municipal e até o direcionamento
dos guardas para
patrulhamento ostensivo nas
ruas. Na saúde, a espera de meses
para consultas ou cirurgias
de especialidades médicas e as
precárias condições do Hospital
de Pronto Socorro, que chegou
a ter a UTI de Trauma interditada
neste ano devido à proliferação
de bactérias, ofuscam a
fama de cidade referência no tratamento
de câncer e na realização
de transplantes.
RIO GRANDE
Uma incógnita. É assim que
os pesquisadores referem-se à cidade
portuária após o início da
instalação da plataforma de
prospecção de petróleo P-53. O
empreendimento já começou a
gerar empregos e a movimentar
a economia, mas ainda não existem
estudos sobre o impacto das
mudanças. “Rio Grande parou no
tempo por um período, porque os
portos foram abandonados, e agora
há este grande empreendimento.
Tudo indica que haverá uma guinada na economia”,
aposta Koucher.
“Ninguém sabe qual o impacto
real da instalação da plataforma”,
ressalva a coordenadora técnica
nacional do Sistema de Pesquisa
de Emprego e Desemprego
(PED)/Dieese, Lúcia Garcia. Ela
lembra a necessidade de importação
de mão-de-obra para atuar
na P-53. “É uma força de trabalho
qualificada de forma muito
específica, que o estado não tem
e não terá por anos. No caso dos
gestores públicos, é importante que
passem a pensar o trabalho como
elemento desta reestruturação produtiva”,
aconselha.
SANTA MARIA
Dificuldades nos serviços públicos
de saúde, saneamento deficiente
e com parte das obras em
compasso de espera por recursos
federais do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), e
perda ou estagnação de posições
nos indicadores da Educação
são parte da realidade de Santa
Maria. Referência na região central
e pólo de geração de conhecimento
por abrigar a Universidade
Federal de Santa Maria
(UFSM), a cidade tem sua economia
alicerçada no setor de serviços
(principalmente públicos) e
no comércio.
Apesar do porte, Santa Maria
ainda se mobiliza para alcançar a
gestão plena na saúde. Já as deficiências
em Educação se traduzem
em números. Entre 2000 e 2004, a
cidade perdeu 25 posições no bloco
Educação do Idese, passando de
103º para 128° lugar. Em 2005 não houve
melhorias. Nesse ano, a avaliação
dos anos iniciais do Ensino Fundamental
pelo Ideb era de 4,1. Em 2007, passou
para 4,2. É inferior à média do
RS, de 4,2 e 4,5, respectivamente.
SÃO LEOPOLDO
Com características econômicas
semelhantes à vizinha Novo
Hamburgo, também debate os problemas
de saneamento, preservação
dos recursos hídricos e manutenção
dos postos de trabalho. A
falta de segurança, a proliferação
das periferias e das moradias irregulares
e as dificuldades no atendimento à
saúde completam o quadro
de problemas.
“São Leopoldo tem em comum
com as demais cidades do seu porte
ou maiores os desafios em relação à
área social e à infra-estrutura”,
avalia o presidente da Federação
dos Municípios do RS (Famurs),
Elir Girardi. “Uma alternativa interessante
para cidades com problemas
e perfil econômico semelhantes,
e geograficamente próximas,
são os consórcios intermunicipais.
Eles aumentam as chances dos projetos
necessários vingarem”, sinaliza
o professor da pós-graduação em
Ciência Política da Ufrgs, Benedito
Tadeu Cesar.
VIAMÃO
Assim como Alvorada, apresenta
grande crescimento populacional,
por atrair trabalhadores de
diversos outros municípios. Mas, ao
contrário da vizinha, tem uma população
com poder aquisitivo mais
alto, o que minimiza em parte os
problemas estruturais. Apesar de
também estar na área de
abrangência de Porto Alegre, a cidade
gravita mais em torno de
Gravataí, abrigando trabalhadores
que atuam no pólo centralizado
pela General Motors. Está entre as
dez cidades com os mais elevados índices de
violência, conforme levantamentos
da Secretaria de Segurança
Pública. Os indicadores de
Educação e Renda deixam a desejar. “Entre
estes dez maiores colégios
eleitorais, Viamão e Alvorada
estão na ponta de baixo. A questão
da renda, na qual possuem indicadores
bem ruins, acaba se refletindo
em várias outras áreas”, explica
o estatístico Rafael Bernardini Santos,
um dos responsáveis pela pesquisa
do Idese na FEE.