Pesquisa vai mostrar impactos da nova escola na prática docente

Professor investiga como as transformações no papel da escola no nível fundamental incidem sobre o trabalho docente no ensino privado

Por Gilson Camargo
ENSINO PRIVADO | Publicado em 01/10/2025


Motta: “A perda de autoridade do professor está ligada a transformações sociais mais amplas, como a mudança no papel da escola, a fragmentação da autoridade familiar e a cultura digital que desloca o professor do centro exclusivo do saber
Foto: Maria Cristina Amaral

Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), MBA em Gestão de TI pelo IGTI, de Minas Gerais, com mestrado em Informática na Educação pelo IFRS Porto Alegre, o professor e pesquisador do Grupo Argos, da PUCRS, Luís Carlos Peters Motta está investigando como as novas configurações da escola contemporânea impactam a prática docente.

A pesquisa é dirigida a professores do nível fundamental, com ênfase no ensino privado, e conta com o apoio do Sinpro/RS. Para participar, acesse o formulário da pesquisa aqui.

“O que me motivou a realizar esta pesquisa foi a percepção, ao longo de mais de três décadas de atuação em escola de que a prática docente está sendo profundamente transformada pelas mudanças no papel social da escola. Se antes o professor era concebido prioritariamente como transmissor de conhecimento formal, hoje ele se vê diante de múltiplas demandas emocionais, sociais e familiares dos alunos, o que revela uma mudança no contrato implícito entre sociedade e educação”, explica Motta, que está concluindo seu Doutorado em Ciências na Educação pela Enber University, nos Estados Unidos.

Essa inquietação tem a ver com o “contrato subjetivo de educação total”, em que a escola passa a acumular funções de socialização primária, tradicionalmente atribuídas à família, e de socialização secundária, antes exercida de forma mais equilibrada pelas instituições sociais, detalha o professor. Há uma sobrecarga de funções que gera tensões no cotidiano docente, acarretando estresse, desgaste emocional e desafios que ultrapassam a formação inicial dos professores.

“Minha motivação central foi dar voz aos docentes para compreender, pela perspectiva deles, como essas transformações impactam sua prática cotidiana e suas relações com alunos, famílias e comunidade escolar. Busco, assim, contribuir para uma reflexão crítica que não somente descreva esses fenômenos, mas que também ofereça subsídios para políticas educacionais e formações docentes mais alinhadas às demandas reais da escola contemporânea”, revela Motta.

O objetivo central da pesquisa é compreender como os professores do ensino fundamental percebem e vivenciam sua prática docente cotidiana diante das novas exigências sociais e escolares, define. “Busco analisar de que maneira as mudanças no papel da escola – que passa a acumular funções de socialização, cuidado e formação integral – impactam o trabalho pedagógico, a identidade profissional e as relações estabelecidas com alunos e famílias”.

Em sala de aula: pesquisa investiga quais são os impactos que as transformações educacionais acarretam aos professores

Por que o ensino fundamental

Segundo o professor, o recorte no ensino fundamental se justifica por três razões principais: epistemológica, social e profissional.

“Em primeiro lugar, do ponto de vista epistemológico, os anos iniciais do ensino fundamental representam um espaço privilegiado de observação da prática docente, pois é nesse momento que se consolidam os processos de alfabetização, letramento e socialização escolar. Trata-se de uma etapa formativa em que as interações entre desenvolvimento cognitivo, linguagem e mediação pedagógica são decisivas para a aprendizagem e para a constituição subjetiva da criança.

Em relação aos fatores sociais, ele explica que pesquisas têm mostrado que as demandas extraescolares sobre a escola recaem com maior intensidade sobre os professores dos anos iniciais. “São eles que frequentemente lidam com problemas relacionados ao comportamento, às carências afetivas e às desigualdades socioculturais, acumulando funções de cuidado, orientação e compensação social como uma pesquisa recente do Sinpro/RS demonstrou relacionado ao Burnout”.

Por fim, a justificativa é também profissional. “O corpo docente do ensino fundamental no Brasil é majoritariamente feminino, formado em cursos de Pedagogia, e enfrenta um contexto de alta cobrança social e baixa valorização profissional Ao recortar essa etapa, a pesquisa busca não apenas compreender a prática em si, mas também dar visibilidade a um grupo profissional cuja voz, muitas vezes, é invisibilizada nos debates sobre educação”, detalha.

Perda de autoridade e adoecimento

Para Motta, as transformações no papel da escola têm provocado um impacto profundo e, em muitos casos, ambíguo no trabalho docente. A escola, que antes era vista principalmente como espaço de transmissão de conhecimentos sistematizados, passou a ser demandada como lugar de acolhimento, compensação social e até de suplência das funções familiares. “Isso gera, ao mesmo tempo, um alargamento das responsabilidades e uma intensificação do desgaste da profissão”, revela.

A perda de autoridade e as dificuldades crescentes no exercício da docência impactam de maneira direta e significativa a saúde física e mental do professor, constata Motta. Ele afirma que, quando o professor percebe que sua palavra já não é suficiente para garantir o respeito e a atenção em sala de aula, instala-se um sentimento de impotência que gera frustração, insegurança e, em muitos casos, a sensação de perda de identidade profissional.

“Esse desgaste emocional se traduz em sintomas de estresse crônico: insônia, ansiedade, fadiga e até quadros depressivos. Estudos sobre burnout docente, como os do Sinpro/RS mostram que a sobrecarga de responsabilidades, aliada à desvalorização social da profissão, favorece o adoecimento psíquico e a perda de motivação. Soma-se a isso a intensificação do trabalho escolar – planejamentos mais complexos, exigências burocráticas, pressão por resultados – que não é acompanhada por melhores condições de trabalho ou apoio institucional”.

Esse processo, alerta o pesquisador, não é apenas individual: ele tem raízes estruturais. “A perda de autoridade do professor está ligada a transformações sociais mais amplas, como a mudança no papel da escola, a fragmentação da autoridade familiar e a cultura digital que desloca o professor do centro exclusivo do saber. Assim, o adoecimento docente não deve ser entendido como fragilidade pessoal, mas como consequência de um sistema educacional que demanda muito e apoia pouco”, alerta.

Etnografia digital e valorização docente

O estudo se alinha de forma direta à atuação histórica do Sinpro/RS, que tem entre suas missões centrais a valorização da categoria docente, a defesa de melhores condições de trabalho e a produção de conhecimento sobre a realidade escolar, ressalta o professor.

“Ao propor uma etnografia digital que dá voz ativa aos professores, a pesquisa reafirma que o espaço acadêmico deve estar a serviço da escuta e da legitimação das experiências daqueles que vivem diariamente os desafios e conquistas da sala de aula”, explica.

O propósito do levantamento é contribuir para a reflexão teórica, mas também “subsidiar práticas e políticas voltadas ao fortalecimento do professor como sujeito coletivo e político. A docência, compreendida como profissão de interações humanas, não pode ser pensada sem que se reconheça o lugar de fala e de construção de saberes do próprio professorado”, conclui.